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Opinião: Sara Custódio, a final do Campeonato Carioca de Futebol Feminino de 1983 e o imaginário sobre o Futebol Feminino no país

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A série documental Doutor Castor, dirigida por Marco Antonio Araújo, e apresentada na Globoplay, abordou por alto um pouco da história do futebol de mulheres no Brasil. O final do primeiro episódio apresenta algumas cenas de violência no estádio Moça Bonita durante a final do Campeonato Carioca de Futebol Feminino, disputada entre as equipes do Bangu A.C. e do E.C. Radar. O time visitante vencia por 1X0 quando Castor de Andrade invadiu o campo com seus seguranças armados no intuito de pressionar o juiz da partida a marcar o lance. A pressão transformou-se em agressão e os árbitros levarão a agressão aos tribunais. 

O presidente de honra do Bangu, seis de seus seguranças e duas jogadoras – Sara Custódio e Elizabeth Costa – foram denunciados pela promotoria por lesão corporal. Apenas Sara e Elizabeth se declararam culpadas. Ambas foram condenadas a sete meses de detenção cada. Dois seguranças foram também sentenciados a retenção. No entanto, todos foram beneficiados pelo sursis e permaneceram em liberdade condicional. Castor foi absolvido e comemorou ao som da bateria da Portela a saída do tribunal.

O Futebol Feminino foi regulamentado no Brasil pela CBF apenas em abril de 1983, mesmo ano da referida partida entre Radar e Bangu. Pouco se veiculava nos meios de comunicação sobre os jogos e os campeonatos. Diante disso, o caso de agressão envolvendo a figura de Castor de Andrade ganhou grande repercussão em todo o país. Sara e Elizabeth foram consideras um mal exemplo para o futebol, recém liberado às mulheres. Em especial Sara, que foi posta em vista como a “fera” em uma reportagem intitulada A bela… e as feras, do jornalista Lemyr Martins para a Placar. Nela, a goleira aparece em destaque como a antítese de Isabel Nunes – a “bela” – do S.C. Internacional. Isabel aparece nas duas primeiras páginas, em fotos coloridas, vestindo um biquíni nas cores do seu clube e em poses sensuais. É branca, tem cabelos longos e está sorridente. Na página seguinte, encontramos as “feras do Bangu” simbolizadas pela pequena fotografia em preto-e-branco de Sara: negra, cabelos curtos, sem sorriso. Ao contrário de Bel, Sara não teve sessão de fotografia, nem foi maquiada – e nenhuma qualidade da jogadora do Bangu foi ressaltada por Martins.

Aos 21 anos, a goleira Sara jamais imaginou que seu nome pudesse estampar as páginas policiais dos jornais. Era estudante e já havia atuado na Espanha. Ao lado de Margarete Pioresan, titular do Radar e, mais tarde, da seleção brasileira, era considerada a melhor goleira do campeonato. Mesmo assim, a sentença da futebolista extrapolou a esfera jurídica. Foi considerada selvagem, fera, condenada pelo jornalismo esportivo da Placar a “voltar à jaula”. Para além da incontestável reprovação da agressão em si, o que se percebe na reportagem da revista é a mobilização de um modelo de Futebol Feminino. Um modelo que justificasse o espaço no campo futebolístico, negado às mulheres por mais de quatro décadas, e a atenção do jornalismo brasileiro – na época majoritariamente composto por homens. Para isso, as futebolistas brasileiras deveriam se encaixar no padrão de gênero e de estética socialmente aceitos na época, tendo em vista uma feminilidade que excluía marcadores sociais. Diante disso, deveriam entrar em campo e atrair o público pela beleza, pelo fetiche, não pela qualidade técnica. Apenas na última década, percebemos mudanças que levaram à desconstrução desse imaginário no país.

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