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Opinião: José Fuzeira e o banimento do Futebol Feminino

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O ano de 1940 mostrava-se bastante movimentado entre as mulheres que jogavam futebol no Rio de Janeiro. Em abril existiam em torno de dez equipes que disputavam os jogos realizados nos estádios suburbanos. Algumas jogadoras já se destacavam, sendo citadas nas seções esportivas dos jornais, como as atacantes do S. C. Brasileiro Aida e Nicéa. A última conhecida como a “Leônidas de Saia”. Diante desse momento mais otimista, em que o desenvolvimento dessa modalidade parecia inevitável, surgiu uma campanha contrária à prática do futebol por mulheres. O movimento, que já vinha sendo defendido pelo delegado de polícia Dulcídio Gonçalves e por parte da imprensa, ganhou o apoio de um cidadão comum chamado José Fuzeira.

No dia 7 de maio, o Diário da Noite, do Rio de Janeiro, publicou a carta aberta de Fuzeira endereçada ao Presidente Getúlio Vargas, cujo teor alertava à autoridade sobre os malefícios físicos e morais desencadeados pela prática do futebol entre as brasileiras. Especulava-se que esportes considerados viris – como o futebol, as lutas e o rúgbi – pudessem prejudicar o sistema reprodutor das mulheres. Dizia a carta: “ainda outros sérios distúrbios de saúde podem soffrer as moças que venham a escravisar-se ao ‘sagrado dever’ de não faltarem aos treinos e se disponham a aumentar as duras recargas de tal jogo; pois, esses recontros de impulsos rudes, incontroláveis, hão de evidentemente, affectar-lhes o equilíbrio do systema nervoso; e, até, (que sabe?) originando, talvez, funestas consequências futuras, no que se refere aos phenomenos próprios da gestação, pois, da perfeita saúde da mãe, depende o vigor e a perfeita constituição dos filhos”. (grafia original)

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Foto: Divulgação / Futebol Feminino do Brasil

Fuzeira havia recém publicado um livro, intitulado Rompendo as trevas, em que orientava, sobretudo, os jovens quais condutas morais deveriam ser adotadas para o bom convívio. Assim, acreditava estar no cumprimento de uma missão social, por isso zelava pela conservação moral e física das mulheres brasileiras. Conforme descreveu na carta aberta, encaminhou um exemplar da obra ao Palácio do Catete: “nosso gesto está inteiramente justificado; se v. ex. se dignar de folhear algumas páginas de um livro nosso, que se encontra em sua bibliotheca particular, e no qual, sem o prurido de quaesquer veleidades literárias, demonstro, de forma inconteste, o meu amor desinteressado pelo bem do Brasil e da Humanidade”

Desde o golpe que deu origem ao Estado Novo, Vargas vinha decretando medidas cada vez mais conservadoras como forma de manter o controle interno. Medidas que as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloísa Starling classificaram como “pequenino fascismo tupinambá”. Em 1939, criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável pela censura dos veículos de comunicação e produções culturais. Ao mesmo tempo, expedia leis populistas que auxiliavam a legitimar o governo. Assim, o caso foi encaminhado pela presidência ao Ministério da Educação e Saúde, onde o ministro Gustavo Capanema criou uma comissão para discutir o assunto. Partiu da Sub-divisão de Medicina Especializada um parecer definitivo, favorável aos argumentos de Fuzeira. 

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Acervo Arquivo Público do Estado de São Paulo

Em janeiro de 1941, o próprio DIP, censurou os programas esportivos que tivessem disputas de Futebol Feminino. Em abril do mesmo ano, o Decreto-Lei n. 3.199, que criou as bases para o Conselho Nacional de Desporto e regulamentou o esporte no país, proibiu às mulheres a prática de atividades físicas consideradas incompatíveis ao que chamavam de “natureza feminina”. O futebol era uma dessas atividades. Na época, a justificativa tinha respaldo científico e apoio das camadas dominantes. De acordo com esses especialistas, o nascimento de futuros cidadãos estaria ameaçado pelo Futebol Feminino. Primeiro porque transgredia o padrão de comportamento esperado às jovens. Em segundo lugar, os impactos e as quedas durante os jogos poderiam causar danos aos órgãos reprodutivos. Ademais, corpos de mulheres fortes não seriam atraentes. Estéreis e solteiras, as mulheres perderiam sua principal função social: a maternidade. Diante disso, o Brasil estava diante da ameaça de queda drástica na população – o que impediria o desenvolvimento econômico e social do país – e do alarmante aumento de mulheres depressivas, moralmente degeneradas. Esse argumento perdurou legalmente até 1971, quando o decreto foi revogado.

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