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Opinião: Entre o assédio e o reconhecimento: qual o espaço ocupado pelas mulheres no futebol?

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Pesquiso a relação entre mulheres e futebol há mais dez anos, desde que encontrei entre os jornais do acervo da Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina uma menção à presença de mulheres nos jogos do Club Sportivo Annita Garibaldi, em Florianópolis. Nela, um cronista conhecido por Toujours destacava o encantamento pelas “toilettes gaies et de bon gôut das excelentíssimas senhoritas da nossa melhor sociedade[1]” que assistiam os jogos na Praia de Fora – onde mais tarde sediou o estádio Adolfo Konder.

A ideia que une mulheres às arquibancadas está na semântica da categoria “torcer”. No Brasil, o termo foi designado para as pessoas que apoiam alguma equipe esportiva. Acredita-se que a origem seja uma referência direta às espectadoras que retiravam as luvas diante do sol estuante do Rio de Janeiro e as torciam num gesto aflitivo ao acompanhar o time em campo.

Longe de querer questionar sua autenticidade, esse mito de origem diz muito sobre o espaço designado a nós, mulheres, no ambiente futebolístico brasileiro. Éramos bem-vindas como bibelôs nas arquibancadas. Quando muito, objetificadas em trajes diminuídos nas páginas de jornais e revistas destinados ao assunto. No entanto, por quatro décadas estivemos proibidas de atuar dentro das quatro linhas. Para nós, o futebol não poderia se constituir como uma atividade, uma profissão.

Em 2021, muitos ainda relutam em conceber a igualdade de gênero no futebol, em suas mais variadas dimensões. Ainda somos vistas com resistência nesses espaços. Seja nas conversas banais em que homens costumam testar nossos conhecimentos futebolísticos, ou mesmo nos ambientes profissionais. Os desrespeitos são inúmeros. Estão presentes, por exemplo, na “cantadinha” à árbitra durante a partida, na tentativa de beijar a jornalista que está em cobertura televisiva, nas investidas sexuais à representante da Nike ou à funcionária da CBF.

Nas últimas semanas acompanhamos a cobertura na grade da Rede Globo dos dois amistosos pré-olímpicos disputados pela seleção brasileira de Futebol Feminino. Dias antes, o então presidente da CBF, Ricardo Caboclo, foi denunciado por cometer assédio sexual e moral contra uma funcionária da instituição. Se o primeiro caso é digno de comemoração, afinal, pela primeira vez um canal da TV aberta transmitiu um amistoso da Seleção Feminina narrado pelo nome mais importante da casa, o segundo é inaceitável. A situação foi tão revoltante que as próprias jogadoras brasileiras trouxeram uma faixa de protesto no início da partida com os dizeres “Assédio Não!”. Um manifesto também foi lançado pelo grupo nas redes sociais, tendo o apoio de Pia Sundhage, Lilie Persson, e das dirigentes Duda Luizelli e Aline Pellegrino.

Posturas como a assumida pela Seleção Feminina mostram o quão importante é dar apoio às vítimas e visibilidade às profissionais do futebol. Precisamos expor os agressores para criar um diálogo produtivo com a sociedade, deixando claro que esses abusos devem ser banidos. Somos muitas atuando na área. Nós pesquisamos, escrevemos, comentamos, jogamos, arbitramos, fazemos acompanhamento físico e psicológico, treinamos, administramos e torcemos. Assim como o escrito no manifesto, “nossa luta pelo respeito e igualdade vai além dos gramados”. Ela marca o espaço arduamente conquistado pelas brasileiras no campo futebolístico no decorrer da história desse esporte no país.


[1]Ver: Toujours. Club Annita Garibaldi. Jornal do Commercio, 8 de abril de 1912, p. 2.

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