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Opinião: Que pênalti bem batido! Aprendeu com a mãe

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No início da década de 1940, um grande debate ganhou força no Ministério da Educação e da Saúde Pública do Governos Vargas: quais seriam os efeitos que a prática do futebol poderia trazer às mulheres? A lista de especialistas, todos homens, chefiados pelo ministro da pasta, Gustavo Campanema, concluiu que as mulheres deveriam ser proibidas de praticar esportes que atentassem contra a sua “natureza”. Acreditava-se que algumas modalidades, como o futebol, poderiam causar danos ao sistema reprodutivo, tornando as brasileiras inférteis. Sem poder gerar, estariam fadadas à depressão, e a continuidade da população, ameaçada. 

Oitenta anos depois assistimos a seleção italiana vencer a Eurocopa, tendo três brasileiros no grupo. A presença de jogadores nascidos no Brasil em selecionados europeus por si só não constitui uma novidade. Sobretudo, quando falamos da Itália. A primeira notícia de um futebolista brasileiro em seleções estrangeiras é referente a Amphilóquio Guarisi Marques, conhecido como Filó. O paulista ajudou a Itália na conquista da Jules Rimet em 1934. Mas talvez o caso mais conhecido seja o de Mazzola, que jogou duas Copas do Mundo em seleções diferentes. Em 1958 foi campeão com a seleção brasileira e, no mundial seguinte, defendeu a squadra azurra.

Foto: Divulgação / Uefa Euro 2020
Foto: Divulgação / Uefa Euro 2020

Jorginho foi titular em todos os jogos da Euro 2021 (2020), e um dos principais responsáveis pela boa campanha italiana. Na semifinal contra a Espanha foi autor do último pênalti – batido tranquilamente no canto esquerdo de Unai Simón. Na final, também disputada nos pênaltis, chutou para fora.

Nascido em Imbituba, Santa Catarina, o volante tem uma trajetória um pouco diferente. Aprendeu os fundamentos do futebol com a mãe nas areias da Praia da Vila. Maria Tereza de Freitas jogou até os 45 anos em clubes amadores do sul catarinense. Na infância, Jorginho a acompanhava nos dias de jogo. Ficava torcendo na beirada do campo. Ainda hoje, em entrevistas, relembra o talento da mãe nos gramados. Também ressalta o importante papel de Maria Tereza em sua carreira como a primeira treinadora. 

Foto: Instagram / @jorginhofrello
Foto: Instagram / @jorginhofrello

Essa história representa um contraponto aos argumentos que levaram ao banimento da prática do futebol por mulheres no Brasil. Em 1940, os homens do governo diziam-se preocupados com as novas gerações diretamente ameaçadas por mulheres “exibicionistas”, que insistiam em jogar bola. Ainda temos governantes que insistem em invisibilizar as futebolistas. Ano passado, ao comentar uma questão do ENEM que comparou os salários de Marta e Neymar, o presidente da República  afirmou que o Futebol Feminino ainda não era realidade no país. Pois o exemplo de Maria Tereza demonstra exatamente o contrário. Jogou por décadas e foi mãe de dois filhos. Era tão boa com a bola que ensinou tudo o que sabia a Jorginho – que se tornou campeão, só que pela Itália.

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