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Jaqueline Mourão pedala por capítulo final simbólico em Tóquio

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Com história que conjuga pioneirismo em modalidades de verão e de inverno, atleta vai encerrar a carreira na capital japonesa na prova de mountain bike

Era uma vez uma menina criada em torno de montanhas na capital mineira. Uma menina que sonhava um sonho “insonhável”: queria inventar uma máquina capaz de seguir o pôr do sol. No fim da trilha, se a menina não parou a rotação da terra, compensou a impossibilidade girando o mundo sobre bicicletas e esquis. No trajeto, escreveu o nome na história do esporte olímpico.

“Eu escrevi um livro infantil de uma menina que sonhava com uma máquina capaz de seguir o pôr do sol. É a minha história. Com a minha bike, segui meus sonhos e escolhi terminar esse ciclo na terra em que o sol nasce”, brincou a atleta de 45 anos, que disputou a prova de mountain bike em Atenas (2004) e em Pequim (2008), mas nos últimos dez anos focou no esqui cross-country e no biatlo, eventos de inverno.

“Eu escrevi um livro infantil de uma menina que sonhava seguir o pôr do sol. É a minha história. Com a minha bike segui meus sonhos e escolhi terminar esse ciclo na terra em que o sol nasce”

Jaqueline Mourão disputa em 27 de julho, em Tóquio, a sétima edição de Jogos Olímpicos. Vai desafiar um percurso de 4,1 quilômetros de extensão com desníveis de elevação de 150 metros, na prova de ciclismo mountain bike. Entre descidas, subidas, curvas de alta, trechos técnicos e rampas acrobáticas, percorrerá em torno de 90 minutos o primeiro de seus capítulos finais.

“Com certeza Tóquio será a minha última Olimpíada no mountain bike. Estou fechando esse ciclo com felicidade. Provavelmente, também, vou terminar a carreira em Pequim 2022, se conseguir consolidar a vaga. Participei lá nos Jogos de verão em 2008. Seria sensacional fechar o ciclo como a única pessoa a estar em Jogos de verão e de inverno realizados no mesmo lugar”.

Nesta entrevista, Jaqueline recupera um pouco de sua trajetória. Fala das dificuldades de preparação impostas pela pandemia e das adaptações impostas pelos protocolos em Tóquio. Defende que a realização dos Jogos é uma aposta na capacidade da humanidade de superar desafios. Conta sobre a complexidade de enfrentar ciclos de verão e de inverno muito próximos em função do adiamento dos Jogos de Tóquio de 2020 para 2021. Detalha mudanças no mountain bike nos últimos anos, que aproximaram a modalidade do BMX.

Jaqueline exalta, ainda, o papel dos investimentos do Governo Federal Brasileiro, via Bolsa Atleta, para que ela chegasse onde chegou. “Sem ele eu não teria continuado por tanto tempo. É a base, a segurança que tenho para continuar me dedicando. Sou muito honrada de ter a ajuda do meu país. Eu me sinto reconhecida”, comentou.

Incertezas e adaptações

Houve muita incerteza nesse ciclo. Foi um período com condições de treinamento bem diferentes. Não tive acesso a salas de musculação durante meses. Tive de fazer duas quarentenas de 14 dias durante a preparação final na fase de qualificação porque, quando voltada para Quebec das viagens em competição, esse era o protocolo. Foi realmente desafiador. Não somente pela pandemia, mas, como sou atleta de verão e de inverno, as coisas ficaram próximas. Eu tinha a classificatória das Olimpíadas de inverno em março e a necessidade de confirmar a vaga para o verão em maio. Tivemos de ter bastante jogo de cintura, abrir mão de algumas provas para poder dar conta do recado.

Vencer como humanidade

Acredito que essa Olimpíada é a da esperança. Para a gente acreditar que vai dar certo. Seguindo protocolos, cuidando da saúde, sendo detalhistas. Todos os atletas que estão aqui, tenho certeza de que vão mostrar o melhor. De que somos melhores do que o vírus. De que vamos vencer como humanidade mesmo. Então achei que esse foi um movimento bonito. De colaborar primeiro com a saúde, seguir os protocolos, cumprir as regras e conseguir fazer com que o evento funcionasse.  

Parâmetros tecnológicos

Com a redução das competições em função da pandemia, a gente não consegue se comparar muito uns com os outros nas provas, mas temos a possibilidade de comparar números. Todas as bicicletas têm medidor de potência, de frequência cardíaca. Há vários parâmetros para ver a nossa progressão. Isso nos ajuda a afiar o motor até a chegada da competição. Com esse parâmetro, fica mais fácil para a gente saber se está na forma ideal. Eu estou me sentindo muito bem.

Retorno e inspiração

Nessa volta para o mountain bike eu conquistei resultados inimagináveis. Foi uma ótima volta, acho até que para servir de estímulo para as pessoas que tenham essa vontade de continuar a lutar. Sou a prova viva disso. A idade não é esse tabu. Estou no esporte há bastante tempo e nessa minha volta, mesmo depois de ser mãe de duas crianças, eu me sinto na fase mais forte e conquistei os meus melhores resultados.

Perspectivas para Tóquio

O melhor resultado brasileiro na prova de mountain bike é o meu de Atenas, décimo oitavo. Neste ano acho que temos aqui a equipe mais forte da história. O Henrique Avancini e o Luiz Cocuzzi fizeram um ótimo ciclo. Acredito que vamos conseguir bons resultados. Estou me sentindo numa fase boa, com números bons. Apesar de todos os desafios de performance, de quarentena, de treinar em casa, consegui fazer a melhor preparação possível.  

Adiamento bem vindo

A qualificação do país para o mountain bike é exaustiva. Tem de viajar muito, competir muito, estar em vários países. Esse adiamento significou um tempo a mais para recuperar o corpo da bateria de provas em 2018 e 2019. Nesse lado, é um tempo a mais para fazer uma preparação maior para as Olimpíadas. Apesar de ter de recalcular, dar bastante trabalho para o meu treinador, e fazer esse equilíbrio no verão e inverno, me parece que foi bom.

Perspectiva de chuva

Com a pandemia, decidiram só abrir a pista para nós no dia 23. A prova é no dia 27. Nesses poucos dias, vamos levar câmeras e fazer um trabalho de visualização das partes técnicas. É tempo suficiente para estudar as linhas, as diferentes passagens. Mas há um porém: possivelmente vai chover no dia da prova. Assim, temos um trabalho específico para calibragem e escolha de pneus. Temos entre o dia 23 e o dia da prova para acertar a bicicleta e a tocada.

Uma nova fase do MTB

Se a gente comparar o equipamento que corri em 2004 com o que vou correr agora a evolução é enorme, desproporcional. Em 2004 eu tinha freios V-Brakes, no aro mesmo da bicicleta, e hoje andamos com uma bicicleta maior, aro 29, com freio a disco e tecnologia sem fio. O meu câmbio não tem cabos. Funciona com bluetooth. Há medidores de potência. Praticamente todos os atletas vão competir com bicicletas full suspension, com duas suspensões. Toda essa evolução foi legal ver desde que comecei em Atenas até agora. E, como a bicicleta evoluiu, as pistas ficaram mais desafiadoras, com saltos altíssimos.

Características como biker

Sou uma atleta resistente. Uma boa escaladora de subidas exigentes. E sou técnica também. Moro em Quebec, no Canadá, pela qualidade das trilhas lá, que são muito técnicas. Acho que o meu ponto fraco são as partes do BMX, que são mais novas na modalidade, os drops, o que é mais aéreo. São partes que tenho dificuldade e trabalhamos muito para aprender o mais rápido possível. Venho de outra geração, em que não existiam esses obstáculos artificiais, mas tenho muito potencial físico e técnico.

Expectativa para a prova

Ah, eu quero uma prova redonda. Tenho experiência suficiente, adquirida em outras olimpíadas. Sei que muitas atletas ficam estressadas, ansiosas, não conseguem dar tudo o que têm. Eu quero sentir que dei tudo e de maneira total. Esse é o meu objetivo. É preciso muita coragem, depois de dez anos, para voltar ao seu esporte e fazer resultado. Por isso, meu objetivo é curtir. Não de não fazer força. Mas de fazer tudo de uma maneira que valha a pena. Que faça valer toda a dedicação. As muitas viagens.

Jaqueline no figurino padrão inverno. Foto: Abelardo Mendes Jr./ rededoesporte.gov.br

Verão e inverno complementares

Até 2008 eu acho que era a biker que fazia hora extra nas modalidades de inverno. Depois, durante dez anos, eu fui a discípula dos esportes de inverno. Mas acho mesmo que o mountain bike e o esqui cross country se complementam. O esqui é muito duro. Testa todo o corpo, tronco, braços, pernas. Ele me fez mais forte fisicamente. É difícil de explicar para as pessoas o tanto de aprendizado que é entrar para esportes de inverno. E o tanto que a gente tem de lutar. Desde a técnica até a preparação dos Esquis, mais a parte tática. Foi uma trajetória longa e pioneira para conseguir resultados expressivos.

Despedidas olímpicas

Com certeza Tóquio será a minha última Olimpíada no mountain bike. Estamos fechando esse ciclo com felicidade. Provavelmente, também, vou terminar a carreira em Pequim 2022, se conseguir consolidar a vaga. Participei lá nos Jogos de verão em 2008. Seria sensacional fechar o ciclo como a única pessoa a estar em Jogos de verão e de inverno realizados no mesmo lugar.  

Seguindo o pôr do sol

Quero fechar esse ciclo de uma maneira legal, leve. Eu escrevi um livro infantil de uma menina que sonhava seguir o pôr do sol. É a minha história. Eu sonhava ter uma máquina que pudesse seguir o pôr do sol. Venho de Minas gerais. Daquele mar de Montanhas. E acho que, na vida prática, eu segui meus sonhos com a minha bike e vou terminar esse ciclo onde o sol nasce. Está sendo um fechamento especial para mim.

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