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Opinião: O encerramento do I Festival Nacional de Mulheres na Arte: uma festa no Morumbi

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(Recife, 11/11/2020)

Como já foi muito falado nesta coluna, a prática do futebol ficou proibida às mulheres brasileiras até 1979 – após 38 anos de vigência. O Futebol Feminino, no entanto, só foi regulamentado pela Confederação Brasileira de Futebol em 1983. Nesse ínterim, as mulheres estavam liberadas para jogar futebol em praias e campos particulares. Porém, não era permitido que árbitros inscritos nos quadros das federações atuassem nesses jogos. 

Diante disso, um movimento de mulheres que pediam pela regulamentação desse esporte e pela criação de campeonatos oficiais ganhou força no país. Chamavam de “Anistia ao Futebol Feminino”. Jornais feministas da época, como o Mulherio e o Chana-com-chana, publicaram textos em apoio a essa luta. Mas a maior demonstração de apoio vinda de movimentos feministas da época foi o encerramento do I Festival Nacional de Mulheres na Arte, organizado por Ruth Escobar, em 1982. O evento, realizado na cidade de São Paulo, contou com a presença de Mercedes Sosa, Annie Girardot, Kate Millett, Natália Correia, Domitila Chungara, entre outras grandes mulheres que atuavam em movimentos feministas na América Latina, Estados Unidos e Europa. 

Como encerramento, estava programada uma partida de futebol entre seleções compostas por jogadoras do Rio de Janeiro e de São Paulo, que aconteceria como preliminar do jogo entre São Paulo e Corinthians no Morumbi. A ideia era mostrar que as mulheres também jogavam futebol no Brasil. 

Em entrevista[1], uma das organizadoras do festival, declarou na época: “Nossa intenção é fazer um show, promover o Futebol Feminino, atrair a torcida para os estádios com um novo tipo de espetáculo que não parece ferir ninguém, exceto uma legislação discriminatória, que impede a mulher de desempenhar uma atividade esportiva reservada, ao que parece, exclusivamente ao homem”. E continuou: “Ora, toda a lei (ou decreto, ou deliberação) que faça clara discriminação de qualquer espécie contraria a Constituição em vigor”.

Obviamente que a Federação Paulista de Futebol, seguindo as determinações da CBF, proibiu que o jogo fosse realizado. Rose do Rio, uma das jogadoras – e também organizadora – da partida, relatou esse episódio em 2012 (quando realizei minha pesquisa de Mestrado com futebolistas do Esporte Clube Radar):

“Foi 68 mil pessoas para ver o futebol feminino. Não foi pra ver o São Paulo em campo. São Paulo e Corinthians. E o Sócrates, o pessoal do São Paulo, do Corinthians deram pra gente todo o apoio. Aí estávamos lá embaixo no vestiário. Todo mundo de uniforme. Aí chegou um telegrama que não poderia entrar as seleções de futebol feminino. Que era proibido por isso, isso e isso […]. Aí a Ruth foi lá saber o que estava acontecendo. Sócrates e Oscar também. O Sócrates depois falou assim: o público está aqui para ver o futebol feminino; não está para ver Corinthians e São Paulo não; então se elas não entrarem, nós também não vamos entrar. E a Ruth também falou: se elas não entrarem, vão entrar as cinco mil mulheres que estão aí fora, vão ficar dentro de campo e ninguém vai jogar”.

A solução encontrada para dar continuidade à programação do festival foi transformar o jogo em “apresentação”: o tempo em campo foi diminuído e os árbitros foram substituídos por pessoas não filiadas à FPF. No final da partida, Ruth Escobar fez questão de trocar as camisas com uma das jogadoras. 

Ruth Escobar trocando camisas com uma das jogadoras no encerramento do I Festival de Mulheres nas Artes no Morumbi em 1982 (Acervo Particular de Rose do Rio)
Ruth Escobar trocando camisas com uma das jogadoras no encerramento do I Festival de Mulheres nas Artes no Morumbi em 1982 (Acervo Particular de Rose do Rio)

[1] O protesto do futebol feminino, “sem identificação”, 14 de outubro de 1982. Recorte de jornal integrante do arquivo pessoal de uma ex-jogadora do Radar.

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