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Opinião: 8M – O que a FIFA tem a dizer às mulheres?

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A Federação Internacional de Futebol Associação (FIFA) é uma organização sem fins lucrativos, que coordena as associações de futsal, futebol de areia e futebol. Fundada em Paris, no ano de 1904, tem sua sede em Zurique, na Suíça. Ao todo, são 211 organizações esportivas nacionais participantes, sendo a segunda instituição internacional com maior número de membros – atrás apenas da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF). A título de curiosidade, a Organização das Nações Unidas possui 193 países membros e o Comitê Olímpico Internacional, 205.

Mas, para além das informações extraídas da Wikipédia, o que a FIFA tem feito pelas mulheres nesses quase 120 anos de existência? 

Foram 26 anos até a primeira Copa do Mundo de Futebol (de homens).  A entidade demorou mais seis décadas para organizar um Mundial de Futebol Feminino. Logicamente que, de 1991 até hoje, houve avanços. Lentos avanços entre alguns períodos de retrocesso, eu diria. Afinal, a FIFA incluiu apenas em 2016 a equidade de gênero em seu regulamento. Mesmo ano em que Fatma Samoura tomou posse como secretária-geral, o que a transformou na primeira mulher a assumir o segundo cargo mais importante da federação internacional – exatos 112 anos após a fundação. Em 2017, as mulheres ocupavam 42% dos cargos de chefia. Esperava-se que essa porcentagem chegasse a 50% em 2019. 

Por outro lado, o Conselho da FIFA, composto por 37 membros, entre presidente, secretária/o-geral, vice-presidentes e membros escolhidas/os pelas seis confederações continentais, tem apresentado dificuldades em aumentar o número de mulheres eleitas para além da cota mínima exigida no regulamento. 

A equidade também está distante dos campeonatos gerenciados pela própria organização. As premiações oferecidas às seleções participantes dos mundiais revelam um abismo entre as modalidades. Nas últimas edições das copas do mundo, Rússia 2018 e França 2019, os valores pagos foram, respectivamente, U$ 400 milhões para as 32 seleções representantes do Futebol Masculino e U$ 30 milhões para 24 participantes do Futebol Feminino. A diferença abissal do montante oferecido às campeãs foi de U$ 34 milhões.

Em ano de Copa do Mundo de Futebol Masculino, a FIFA mais uma vez perdeu a chance de usar de sua projeção como órgão máximo do futebol mundial para a defesa de mulheres. Em junho de 2021, Paola Schietekat Sedas foi estuprada no apartamento em que residia no Catar. A economista mexicana, que trabalhava na organização do megaevento, passou de vítima a ré em poucos meses. Por ser mulçumana, foi enquadrada na Lei Islâmica e condenada pela justiça desse país a cem chibatas e sete anos de prisão. O agressor argumentou que mantinha relações sexuais com Paola, o que serviu para que o estupro fosse considerado um “caso extraconjugal”, portanto, sujeito à penalidade. A justiça desconsiderou como provas as imagens das câmeras de segurança do local e as marcas da agressão deixadas no corpo da vítima. A federação não emitiu nenhuma nota de repúdio sobre o caso. Enquanto isso, muitas mulheres declararam não se sentir seguras para acompanhar os jogos nos estádios durante a copa – para as mulheres trans, os riscos são absurdamente maiores.

Isso nos mostra que o presente contradiz o que Joseph Blatter, ex-presidente da instituição, projetou sobre o futebol ainda em 1995, quando declarou: “o futuro do futebol é feminino”. O futuro revelou não somente o telhado de vidro existente no Conselho da FIFA, mas também a conivência da instituição frente aos abusos cometidos às mulheres no país que sediará um dos maiores eventos esportivos do mundo este ano. Espero apenas que não demore mais trinta, setenta, cem anos para atingirmos a tão esperada equidade de gênero presente no regulamento da FIFA.

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