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Opinião: A objetificação das mulheres nas capas da Placar Magazine e o “gênero da bola*”

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Há alguns dias, a perfil da Olímpia Sports no Instagram publicou uma capa da Placar Magazine de Agosto de 1995. Na foto, quatro mulheres estão de costas – são modelos, não futebolistas. Tocam-se entre si e trajam roupas curtas, que não condizem com os uniformes utilizados pelas mulheres em campo na época, meiões e chuteiras. A chamada diz: “Futebol Feminino – As garotas batem um bolão (e até trocam as camisas depois do jogo)”.

Entre as décadas de 1980 – período em que ocorreu a regulamentação dessa modalidade pelo Conselho Nacional de Desporto – e 1990, foram publicadas mais quatro edições da revista em que as mulheres foram capa:

  • Placar Magazine de 13 de Julho de 1984 (edição semanal): 

Chama a atenção para o número de mulheres praticantes da modalidade no Brasil. No entanto, a imagem é o que mais sobressai. Nela está Vandira, uma futebolista do Cruzeiro na cena do vestiário – traja camiseta do clube e calcinha, enquanto arruma as faixas na perna. 

  • Placar Magazine de Janeiro de 1996 (edição mensal): 

A capa é estampada por Cleidy Ribeiro, árbitra de futebol que atuava como auxiliar nos jogos do Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino. Sobre Cleidy, a chamada diz: “A juíza mais gostosa do Brasil”. 

  • Placar Magazine de Setembro de 1996 (edição mensal): 

Considerada uma das capas mais famosas da revista. A foto traz a atriz Susana Werner, na época também jogadora do Fluminense, e a frase: “Acredite, ela joga bola!”. Susana tem apenas uma bola tampando os seios. 

  • Placar Magazine de Março de 1997 (edição mensal): 

Apresenta quatro jogadoras – Susana Werner e Fernanda Chuquer, do Fluminense, e Priscilla Ribeiro e Amanda Carreira, do Fogatas (Botafogo) – todas vestem biquínis. A chamada para a reportagem diz: “Gostosas! Haja coração… Quem são as deusas do Futebol Feminino”.

Existem boas análises sobre essas reportagens da Placar escritas por diferentes pesquisadoras brasileiras. Gosto muito e indico a reflexão de Mariane Pisani, desenvolvida em sua tese* defendida no Programa Pós-Graduação em Antropologias Social da Universidade de São Paulo. O texto salienta que o futebol brasileiro foi construído a partir de um gênero específico, o masculino. Mas tal gênero nada mais é do que uma construção social que liga masculinidade à virilidade. 

A antropóloga explica que as mulheres, no decorrer do século XX, permaneceram à margem não somente da prática desse esporte, como também da produção de conteúdos. 

Quando a prática do futebol foi liberada e, mais tarde, regulamentada, esse “gênero da bola”, conforme o nomeia Pisani, já estava legitimado. Nessa época, também a Placar Magazine já havia se consolidado como principal publicação esportiva no país. O foco, obviamente, era centrado no futebol jogado por homens, considerado o esporte nacional e o espaço por eles de direito. 

As mulheres apareceram em algumas reportagens e nessas capas que não abordavam necessariamente questões relativas às suas carreiras e aos campeonatos que participavam. Ao contrário, privilegiavam características corporais dentro do padrão de feminilidade vigente naquele momento. Mariane Pisani ainda afirma que, apesar dos argumentos utilizados pela Placar em 1995 reciclarem os mesmos que justificaram a proibição em 1941, há certo incentivo à prática do futebol de mulheres – desde que as adeptas preservassem “os signos supostamente femininos que recaem sobre o corpo delas”, e que tivesse como finalidade “o cultivo de um corpo magro, esbelto e sem excesso de gorduras”, completa. 

Assim, as reportagens privilegiavam jogadoras brancas, magras, cabelos longos e soltos, maquiadas e em roupas curtas. Enalteciam os atributos físicos, objetificando os corpos das profissionais do futebol. 

E é essa objetificação que nos choca na atualidade quando nos deparamos com as capas da revista. Vinte e sete anos depois dessa edição, as imagens que representam a relação entre mulheres e futebol são outras: remetem a um profissionalismo, às conquistas e aos campeonatos no Futebol Feminino. Respeito e espaços conquistados após mais de um século de lutas das brasileiras. Também se torna importante lembrar que essa luta ainda persiste. 

* PISANI, Mariane. “Sou feita de chuva, sol e barro”: o futebol de mulheres praticado na cidade de São Paulo (Tese). Universidade de São Paulo (PPGAS). São Paulo: 2018.

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